17 de dezembro de 2008

Egípcia

Poucos detalhes daquela noite permaneceram na minha memória. Desde o momento que cruzamos os olhos, não consegui pensar em outra coisa: ela ia ser minha! Aqueles olhos escuros contornados com um traçado ainda mais escuro e os cabelos curtos, nos ombros, a deixavam com um ar de mulher egípcia; aquelas pernas torneadas escondidas só por um pedacinho de pano que se insinuava subir a cada virada, a cada passo, a cada vento; mulheres altas, de vestido e salto-alto bombardeiam meu coração – fico burro, simplesmente dopado pelas substâncias naturais produzidas pelo meu próprio corpo, enfim. Contato feito, a coisa evoluiu rápido, entre beijos, toques, e algumas mordidas, até que nossos carros estacionaram juntos na garagem do motel mais próximo. Mulheres decididas são extremamente sedutoras!

Não sei especificar o exato momento, nem os motivos, mas sua mística de fêmea fatal escorreu muda e indefesa pelo ralo, junto com os restos de maquiagem borrada pelo suor, deixando em meus braços uma mulher totalmente diferente da que eu havia conhecido algumas horas antes.

***

Não fosse pela bebida em demasiado talvez eu nem lhe desse tanta atenção. Mas confesso: a estatura, o porte, os olhares demorados na minha direção chamaram-me a atenção. E diga-me, como fugir daqueles olhos castanhos? Olhos grandes capazes de olhar-me por inteira de uma só vez. Não perderei tempo caro leitor em lhe descrever mais do homem que em poucas horas tinha-me numa cama.

Limito a falar dos teus toques, da pele clara em contraste com a minha mais morena, das mãos dele bagunçando meus cabelos curtos. Quero falar da língua na minha pele, das mordidas no meu pescoço. Dos beijos longos e fortes que me marcaram a boca. Homem bonito, de humor, de atenção. O típico homem capaz de tirar até a mais sensata das mulheres dos trilhos, capaz de tirar-me dos trilhos. Era ele.

Ele capaz de desarmar-me, deixar-me imóvel e silenciosa sobre a cama. Ele que conseguiu roubar de mim a mística de fêmea fatal que sustentava. Junto de minha máscara, caíram diante dele minhas barreiras. E em seus braços tornei-me a frágil mulher que já havia sido antes.

15 de dezembro de 2008

Uma tarde de quarta-feira.


Tarde de quarta-feira, um céu que ameaça chuva, mas não quer chover. Ela nervosa, o olhando fixamente, ele calmo – como de costume – ignorando seus olhares. Por mais uma vez ele finge não vê-la, e ela jurando a si mesma nunca mais lhe dirigir o olhar. Ela merecia mais que isso, ele não estava disposto a lhe oferecer o que queria.

Por mais uma tarde ela o olhou, prometendo ser a última.

Tomada de uma súbita irritação por notar que ele não reparava nela, andou firmemente na sua direção, ele fingindo não a ver, e ela como um touro preparando-se para o golpe. Quando enfim lhe deu um esbarrão, ele assustado lhe olhou de cima em baixo, ela com raiva penetrou fundo nos seus olhos e disse num tom de voz hostil:

- Tu nunca saberás o que perdeu!


...


Morena, baixinha, cabelos curtos, pouca maquiagem – combinação explosiva, mas irresistível. Não sei de onde surgiu, nem por que motivos – creio que tenha me confundido com alguém – mas passou por mim como quem dá uma bronca, talvez com o mesmo ímpeto da tempestade de verão que começava a se formar, falando que eu nunca saberia o que perdi num tom de voz que todos à volta puderam ouvir. Sei lá, não entendi o motivo daquilo! Ganhou a rua com passos firmes e indecisos, encaixando os óculos escuros como se fosse uma máscara que a protegesse do mundo, sem sequer olhar para trás. Sem reação, só voltei à realidade quando perdi de vista a moreninha explosiva de vestido e all-star branco sendo engolida pelo movimento dos pedestres na calçada, enquanto o café me olhava com um misto de curiosidade e ar de reprovação. Em todo caso, minha atração por baixinhas explosivas que não usam salto me arremessou para as ruas, sob as primeiras gotas de chuva que se precipitavam como agulhas frias golpeando minha pele, a esta altura já fervendo um calor impróprio para uma tarde de quarta-feira.

11 de dezembro de 2008

cafeteria

Sobre a mesa um livro, um chocolate e uma garrafa de água com gás. Um céu denso, com uma garoa fina que insistia em cair, janelas fechadas e murmúrios das conversas das mesas ao lado. Ela tímida mal conseguia lhe olhar nos olhos, ele destemido provocava seus olhares. A conversa longa, as risadas dadas com alegria, os toques de mãos sem pretensões. Ele carregava uma pesada capa de chuva, ela com o guarda-chuva xadrez. Ele jurava que ela não leria o livro, ela tentava entender por que ele gostava de água com gás. Juntos mais uma vez estavam naquele mesmo café, e por mais uma vez às vezes lhes faltavam as palavras. Era um misto de felicidade, medo e agonia. Mas ambos não conseguiam sair dali. Uma bandeja bamba, com dois espressos – dos italianos – fumegantes, negros e perfumados, agora depositados sobre a mesa. O dela sem açúcar, o dele muito melado. Um chocolate que pretendiam dividir, mais toques de mãos sem pretensões. Mais risadas dadas com alegria. Finda mais uma tarde, mais uma promessa de um novo encontro. Outro beijo doce na face, mais nervosismo e timidez da parte dela. Mais uma tentativa da parte dele. E os dois partem com sorrisos bobos nos lábios.